Pesquisa mostra percepções das juventudes brasileiras sobre políticas públicas, diversidade e acesso à informação

Levantamento inédito da Fundação Friedrich Ebert Brasil (FES Brasil) evidencia a persistência de desigualdades estruturais no acesso ao trabalho e aos direitos sociais no Brasil.

Nov 6, 2025 - 13:51
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Pesquisa mostra percepções das juventudes brasileiras sobre políticas públicas, diversidade e acesso à informação

Apesar da insatisfação com a situação econômica e as condições do país, os jovens mantêm esperança com seu futuro. É o que revela o levantamento “Juventudes: Um Desafio Pendente”, realizado pela Fundação Friedrich Ebert Brasil (FES Brasil), que analisa as percepções, atitudes e posicionamentos de jovens entre 15 e 35 anos no Brasil – baseado no relato de mais de 2 mil entrevistados.


Segundo o estudo, apesar de 58% avaliarem positivamente a educação recebida, a promessa de ascensão social por meio da escolaridade e do trabalho digno não se concretiza para muitos, em especial para jovens negros, mulheres e pessoas de classes mais baixas. Apenas 29% dos jovens pretos e 32% dos pardos disseram ter um trabalho estável, enquanto 45% dos entrevistados das classes mais baixas estavam desempregados ou em busca de oportunidades.


A pesquisa também apresenta que, para 61% dos jovens, o problema que mais preocupa o Brasil é a pobreza, o desemprego e a falta de acesso a direitos, resultado que dialoga com os principais temas que deveriam ser abordados pelas políticas públicas no Brasil, de acordo com a análise. Para 55% dos jovens o Estado deve garantir políticas de emprego, seguido de políticas sociais (46%) e políticas para a segurança cidadã (27%).


“Esses dados refletem o impacto das desigualdades estruturais e das reformas que, após 2016, intensificaram a precarização do trabalho e dos direitos sociais. Ao mesmo tempo em que reconhecem melhorias em áreas como a educação e a ampliação da escolaridade, também enfrentam uma realidade de emprego crescentemente precarizado, com fortes desigualdades marcadas por classe, raça e gênero. Contudo, quando questionados sobre como enxergam o próprio futuro nos próximos cinco anos, 88% têm expectativas otimistas”, explica Willian Habermann, diretor de projetos da Fundação Friedrich Ebert Brasil (FES Brasil) e autor do estudo.


Ideologia, política e democracia
De acordo com a pesquisa, a maioria da juventude (66%) considera a democracia a melhor forma de governo, mas 49% acreditam que uma democracia pode funcionar sem partidos, sinalizando tensões entre valores democráticos e autoritários. No entanto, essa valorização convive com a aceitação de ideias que tensionam a democracia representativa, com 58% dos entrevistados preferindo um líder forte, que resolve melhor os problemas, do que os partidos ou as instituições.


No espectro ideológico, 44% dos entrevistados se identificam com o centro, 38% com a direita e 18% com a esquerda. As mulheres tendem a se posicionar mais à esquerda (20%) e a adotar visões mais progressistas, enquanto os homens aparecem em maior quantidade alinhados à direita e a valores tradicionais.


“Os jovens brasileiros movimentam-se num terreno ambíguo, onde convivem demandas progressistas com adesões conservadoras, configurando um panorama político em disputa constante. Apesar das divisões ideológicas, a análise aponta para uma convergência em pautas progressistas, como taxação de grandes fortunas, regulamentação de mídias e combate às desigualdades. A defesa de um Estado democrático e inclusivo, capaz de garantir direitos básicos como educação e saúde, é um consenso entre jovens de diferentes espectros políticos”, informa Elisa Guaraná, professora da UERJ e autora da pesquisa.


Diversidade e costumes
Os resultados do levantamento mostram que a maioria da juventude assume posições progressistas em temas de igualdade e direitos. Entre eles, 66% apoiam a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero, 58% aceitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e 59% concordam que pessoas transgênero devem ter acesso a cuidados de saúde relacionados à afirmação de gênero.


A pesquisa ainda mostra que a tensão em torno da pauta do aborto permanece forte. No Brasil, apenas 33% dos jovens apoiam a legalização do aborto, enquanto 51% se declaram contrários a medida e 16% não souberam responder.


Os dados revelam percepções que, à primeira vista, podem parecer contraditórias: algumas pautas encontram amplo apoio entre os jovens, enquanto outras geram divisões mais significativas. “Embora prevaleça uma visão progressista em temas de inclusão e igualdade, persistem divisões quando se trata de direitos reprodutivos, evidenciando barreiras sociais e culturais para avanços mais amplos”, avalia Elisa.


Para a professora, nesse cenário, algumas agendas conservadoras ganham centralidade, como o apoio a família tradicional. “Existe também uma expressiva concordância com propostas de endurecimento penal, como a redução da maioridade e penas mais rigorosas, assim como maior adesão, entre os que se identificam à direita, à defesa de privatizações em áreas estratégicas”, destaca.


Segundo ela, os dados indicam que, embora exista forte adesão a direitos sociais e políticas redistributivas, temas ligados à moral sexual, à segurança pública e ao papel do Estado na economia constituem eixos de disputa que atravessam o campo das juventudes.


Redes sociais e engajamento
O papel das redes digitais na vida desse grupo etário é central tanto para o acesso à informação quanto para formas de mobilização social e política. De acordo com o levantamento, a maioria dos jovens brasileiros presta atenção às notícias de maneira regular, com 60% consumindo diariamente e 33% algumas vezes na semana, totalizando 93% de engajamento frequente.


As redes sociais aparecem como o canal predominante para buscar informações, sendo mencionadas por 57% dos entrevistados, seguidas pela televisão (45%), que apesar do avanço da digitalização ainda mantém um papel central no acesso à informação, especialmente por sua presença massiva e acessibilidade em diversas regiões do país. No entanto, meios tradicionais como jornais impressos, tem apenas 2% de participação no acesso à informação da juventude, indicando a perda de espaço para novos formatos.


Plataformas digitais como YouTube (30%), WhatsApp (25%) e outros sites na internet (24%) também se destacam, demonstrando que a busca por informação está cada vez mais fragmentada e mediada por ferramentas online.


“A juventude no país mostra-se atenta ao cenário político e social, utilizando redes sociais como Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube tanto para entretenimento quanto para buscar informações políticas. Mas o que chama a atenção também é o predomínio de uma participação mais reativa, que inclui curtir ou compartilhar conteúdos, em detrimento de ações mais proativas, como criar campanhas ou produzir conteúdos originais”, ressalta Habermann.
 

Metodologia
A pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente foi concebida para analisar de forma detalhada as percepções, atitudes e posicionamentos políticos das juventudes não só no Brasil, mas também em outros 14 países da América Latina e Caribe, utilizando uma metodologia mista baseada em pesquisas e análise de dados estatísticos. O objetivo foi compreender como essa geração interpreta a democracia, o papel do Estado e as desigualdades sociais em países marcados por transformações políticas profundas.


A principal ferramenta foi a coleta de dados via survey realizada pela YouGov para a FES, aplicada entre janeiro e fevereiro de 2024. O questionário foi elaborado em colaboração com os escritórios da FES na América Latina e no Caribe. Ao todo, foram realizadas 21.847 entrevistas na região. No caso do Brasil, foram entrevistados 2.024 jovens entre 15 e 35 anos utilizando uma metodologia de amostragem online com painéis web.


O desenho amostral da pesquisa considera: gênero, faixa etária, região do país de residência, tipo de área (urbana, suburbana ou rural), nível de escolaridade, situação de emprego e uma variável sobre acesso às notícias. Além disso, a análise de classe social foi construída a partir do modelo de classificação socioeconômica ESOMAR, que se baseia em variáveis baseadas em chefes de família (como educação e ocupação) e variáveis estritamente econômicas (como renda e acesso a bens).


Sobre a Fundação Friedrich Ebert Stiftung
A Friedrich Ebert Stiftung (FES), fundada em 1925, é a fundação política mais antiga da Alemanha e foi criada para dar continuidade ao legado político de Friedrich Ebert, o primeiro presidente alemão eleito democraticamente. Como fundação política, seu trabalho é regido pelos ideais e valores fundamentais da democracia social – liberdade, justiça e solidariedade. Como uma instituição privada de utilidade pública sem fins lucrativos executamos nosso trabalho de forma autônoma e independente.


A instituição iniciou as suas atividades no Brasil em 1985. Desde então, a FES Brasil se baseia na promoção da democracia e do desenvolvimento econômico ambientalmente sustentável, na contribuição da paz e da segurança e na criação de uma globalização solidária como diretrizes fundamentais para nortear seu trabalho no Brasil.

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